Fonte: https://www.santos.sp.gov.br/?q=noticia/a-receita-para-recuperar-a-dignidade

 

Andressa Luzirão

“Cozinhar não é um serviço. É uma forma de amar”. A frase estampada em um quadro pendurado na parede do Bom Prato Morros, no São Bento, dá o tom à história de superação do auxiliar de serviços gerais Luiz Carlos do Nascimento, 57 anos, e do chef de cozinha Helmuth Witt Tilly, 39. Vivendo em situação de rua em Santos, eles encontraram na Casa Êxodo, na Vila Nova, o suporte estrutural e emocional para, do desamparo das ruas, resgatarem amor-próprio e dignidade. Em meio à pandemia da covid-19, os dois reergueram suas vidas ao conseguirem emprego em restaurantes da Cidade.

“Foi uma alegria voltar a trabalhar. Me sinto gente; antes, me sentia inútil”, conta Luiz Carlos, há três meses indicado pela equipe da Casa Êxodo para trabalhar no Bom Prato, equipamento mantido pelo Governo do Estado em parceria com a Prefeitura, que oferta refeições a preços acessíveis. Às 5h, ele já está de pé na Casa Êxodo para tomar banho. Só não toma café. “Deixo para as pessoas que estão lá, pois aqui no Bom Prato sei que terei café”, conta ele, que entra às 7h e vai de bicicleta para o trabalho.

No local, depois de colocar luvas, touca, máscara, botas e avental, faz de tudo: serve, limpa, lava panelas e ajuda a preparar um total de 1.050 refeições por dia, entre almoço e café da manhã. “Já tinha experiência na área, pois trabalhei na Santa Casa. Mas depois eu caí por causa da bebida, meu ponto fraco. Foi ela quem me levou às ruas. Me sentia como um animal dormindo no papelão”.

Diante da comida, a lembrança de ter passado fome. É assim que Luiz fica, reflexivo, entre uma concha de feijão e outra que coloca em cada marmita que ajuda a preparar no Bom Prato. “Não gostava de pedir comida. Agora, quando vejo uma pessoa sentada esperando abrir o Bom Prato, lembro do que vivi nas ruas. Não quero que ninguém passe fome”.

Para o gerente da unidade, Rafael Bião, o funcionário é “nota mil”. “Trabalhador excelente. Muito bom tê-lo em nossa equipe. Ele chegou no momento certo, quando a demanda de refeições era maior por causa da pandemia. Para nós é gratificante, como equipamento social, ser uma ponte de oportunidade de esperança, na certeza de que qualquer ser humano tem possibilidade de mudar de vida”.

Finalizado o expediente, Luiz retorna à Casa Êxodo, onde se sente acolhido. “É um lugar muito especial, que mudou minha vida. Sou tratado com carinho, tenho higiene completa, aprendi a tocar violão, fiz curso de manutenção de ar-condicionado. Na Casa Êxodo, quando a pessoa entra, não quer sair”.

Hoje, ao olhar para o futuro, sonha: “Quero ter uma casa, estar com meu filho de 19 anos e levá-lo para a igreja. Não quero olhar para trás. Pensar no passado é sofrer duas vezes. Agora, só enxergo coisas boas”, diz ele, que em sete meses vivendo no serviço de acolhimento, não tocou em bebida alcoólica.

Trabalhando em um restaurante japonês, o cozinheiro Helmuth, nome de origem alemã, chegou na Casa Êxodo em outubro. Com depressão, foi morar nas ruas em razão de conflitos familiares. Não imaginava que, lá, encontraria suporte para conquistar um emprego tão rápido. “Consegui trabalho por conta própria e carteira assinada num momento em que as pessoas estão perdendo seus empregos. Tenho todas as condições de trabalho, estou no céu. A Casa mudou tudo na minha vida e, hoje em dia, ela é minha família. Aqui, com cada um que a gente conversa há um pouquinho de nós”, diz, com olhos marejados.

Com as atividades e reuniões realizadas no local junto aos educadores, Helmuth diz ter conseguido controlar a ansiedade e obtido todo o auxílio, da comida, cama e ambiente limpo a produtos de higiene, toalhas e roupas. “Eu não tinha condições de ir a uma entrevista de emprego adequadamente. Tive todo o suporte aqui, principalmente emocional. Se não é tratada a alma, dificilmente a pessoa vai conseguir voltar à sociedade. Minha alma foi tratada aqui. Jesus é o primeiro grande responsável por essa cura, depois a Prefeitura e os educadores. Me sinto muito feliz”.

É no trabalho que Helmuth se realiza. Sem concluir a faculdade de Direito por não conseguir pagar a mensalidade, se descobriu na cozinha. “É o que gosto de fazer. Minha família era de confeitaria, está no sangue. Eu só demorei para perceber, mas sempre gostei como hobby”. O Direito “é um sonho que ficou no caminho”, como ele diz. Porque, agora, Helmuth quer mesmo é ingressar na gastronomia. “Meu sonho”. Sua especialidade na cozinha são carnes, mas sua experiência é diversa: “Sei culinária francesa, alemã, austríaca, portuguesa. Já fui chef de restaurante português, já trabalhei com hamburgueres, com pães e atualmente com comida japonesa”.

 

Montado em maio pela Prefeitura, em parceria com a ONG Vidas Recicladas, para ampliar a proteção social dessa população durante a pandemia, a Casa Êxodo é um abrigo institucional na modalidade casa de passagem, que conta, no momento, com 41 usuários, entre homens e mulheres. Mais de 500 pessoas já passaram pelo equipamento em sete meses, encaminhados pelo Centro Pop ou pela equipe de abordagem da Secretaria de Desenvolvimento Social (Seds).

O equipamento dispõe de 13 quartos, com quatro beliches cada, armários individuais com cadeado e três baias para abrigar animais pertencentes aos moradores. Oferece espaços de higiene para cuidados pessoais, com acessibilidade, guarda de pertences e alimentação – café da manhã, almoço, café da tarde e jantar. “A casa de passagem tem um desenho de 90 dias. Devido à pandemia, eles estão ficando aqui o tempo que precisam e têm alimentação, chuveiro quente, armário, camas com cobertores e lençol”, explica o coordenador social Edson Henrique Alves Junior, da ONG Vidas Recicladas, que faz a gestão da Casa Êxodo.

Há também orientação e encaminhamento para quem necessita de documentação pessoal e de outros serviços públicos do Município, além de atividades educativas, reuniões em grupo e cursos. “Uma vez por mês, uma voluntária faz os currículos dos que se interessam. O melhor pagamento é vê-los sendo encaminhados, pois eles chegam aqui sem rumo, sem perspectiva de vida. Trabalhar neles a retomada da vida em sociedade é o que nos motiva a continuar nessa luta”, acrescenta Junior.

 

Atualmente, são seis serviços de acolhimento voltados à população em situação de rua no Município – Casa Êxodo, Albergue Noturno, Seacolhe AIF, Casa das Anas (para mulheres em situação ou eminência de rua com ou sem filhos), Seabrigo AIF e Abrigo Emergencial, também aberto na pandemia. Ao todo, somam 286 vagas.

O acesso a eles se dá pelo Centro Pop e pela equipe de abordagem social, que faz trabalho de convencimento e construção de vínculos de confiança com essa população. O Centro Pop presta atendimento com assistentes sociais e psicólogos e encaminha aos acolhimentos, conforme o caso. Há ainda o programa Fênix, trabalho educativo que objetiva fazer com que a pessoa volte ao mercado de trabalho.

“Há um plano individual de atendimento para fortalecer a pessoa em seu processo de autonomia e de saída do acolhimento institucional. O objetivo é garantir os direitos humanos, respeitando as escolhas dessas pessoas. Que sejam capacitadas e orientadas para que possam dar encaminhamento em suas vidas”, afirma a gestora do programa Novo Olhar, Juliana Laffront, da Seds, ressaltando que as portas estão abertas a empresários interessados em conhecer os serviços e contribuir com a reinserção dessas pessoas no mercado de trabalho.

Em Santos há, no total, 21 unidades de acolhimento, sendo 9 governamentais e 12 não-governamentais, que fazem parte da Rede Socioassistencial do Município, atendendo população em situação de rua, crianças, adolescentes, adultos e idosos, mulheres vítimas de violência e pessoas com paralisia cerebral.

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